Marcos Bertoldi analisa a arquitetura contemporânea e fala das características do seu trabalho

Para arquiteto, profissão deve acompanhar mudanças da sociedade; e os bons profissionais são aqueles que conseguem criar identidade em seus trabalhos

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Marcos Bertoldi

A profissão de arquiteto é muito abrangente e pode operar em grande amplitude de possibilidades. Desde os grandes projetos urbanísticos até as pequenas construções, o trabalho do arquiteto é sempre necessário. No caso de Marcos Bertoldi, que desde formado esteve à frente de seu próprio escritório como profissional liberal, o objetivo sempre foi atender a projetos de pequeno e médio porte, de interiores e paisagismo. “Desde o início, tinha um foco traçado. Acabei investindo nessa área sem grandes guinadas ou movimentos. E sem mudar o plano”, conta sobre o início de sua carreira.

Há 30 anos no mercado de trabalho, Bertoldi ainda encontra alguma dificuldade em descrever ou classificar o cenário atual. Como em qualquer outra área, se formam mais arquitetos do que os que atuam diretamente na carreira. Segundo ele, é uma tendência mundial. “Na Itália, por exemplo, apenas 3% dos formados trabalham com Arquitetura,os restantes 97% trabalham fora da profissão”. A Arquitetura enquanto atividade é um campo multidisciplinar, incluindo em sua base a matemática, geometria, física, as artes, a tecnologia, as ciências sociais, a política, a história, a filosofia, entre outros. Por isso, o mercado é difícil de ser mensurado. “É uma atividade que gera poucos critérios de avaliação objetiva por parte dos clientes. Quero dizer que a sociedade tem poucos elementos para julgar o trabalho do arquiteto”, explica.

O desenvolvimento da profissão fica barrado nesse empecilho. Um profissional de má qualidade pode ser beneficiado pelo fato de existir um lado subjetivo na Arquitetura, que dificulta o cálculo do valor real do projeto, por desinformação da sociedade. Para Bertoldi, “se a sociedade valoriza o profissional errado, logicamente piora esse campo profissional. Tudo isso deforma um pouco o mercado e dificulta o entendimento da arquitetura como uma profissão liberal”. Ao contrário de um médico, advogado ou engenheiro, profissões liberais em que o trabalho pode ser medido pelo público geral, mostrando as capacidades ou falhas de cada profissional. A arquitetura depende da avaliação dos próprios arquitetos, ou profissionais da área, para julgar um projeto como bom ou ruim.

Outra dificuldade são os clientes que contratam o serviço do arquiteto achando que podem modelar os projetos de acordo com suas vontades. “Muitas vezes isso vai contra os próprios princípios da Arquitetura”. Segundo Bertoldi, existe uma percepção da profissão que inibe o crescimento e desenvolvimento de 10394534_631131110347491_7046637092617626558_num jovem arquiteto.

“Uma carreira é construída gradualmente, você recebe os sinais aos poucos. O reconhecimento dos críticos e teóricos da área é essencial para que o público leigo o reconheça”. No entanto, esse reconhecimento não quer dizer que o número de clientes ou contratos vá crescer. “O arquiteto que tem um bom nome não é desejado pela maioria da população. Eles querem alguém que possam moldar”, explica o entrevistado.

A Arquitetura é o reflexo da sociedade em uma determinada época. Reflexo dos costumes, linguagem e cultura podem ser percebidos nas construções e monumentos. “Pôr tudo isso de lado e querer fazer um projeto como se estivéssemos em uma província francesa, ignorando nossas crenças, nosso sistema de pensamento, isso é fantasia. E eu não faço”. Almejando sempre projetos contemporâneos e de qualidade, Bertoldi coloca como uma das principais características de sua obra a captura da luz natural. “Eu não abro mão de um controle grande da iluminação natural. Levo isso até as últimas consequências, de maneiras interessantes. Uma relação intrínseca com o terreno. Agora, se é de qualidade? O trabalho está sendo julgado, e vai ser julgado enquanto eu estiver conseguindo atingir meus objetivos”.

O pensamento de que a Arquitetura é um espaço habitável que melhora a qualidade de vida é atual e se renova junto com a sociedade. “As pessoas estão ficando mais sofisticadas, os conceitos são mais elaborados. Há preocupações que antigamente não existiam, como a preservação do meio ambiente, a utilização racional dos recursos naturais”. A Arquitetura procura uma boa harmonia com o terreno e seus arredores, minimizando o impacto na natureza. “O conceito de vida sustentável não mudou meus princípios, sempre me preocupei com esses critérios. A boa Arquitetura sempre foi preservacionista”.

11069374_651193688341233_4886858009290135383_nLudwig Mies van der Rohe (alemão e um dos maiores nomes da Arquitetura no século XX) dizia que não via a mínima necessidade de criar uma nova arquitetura todas as manhãs, e é nesse pensamento que Bertoldi segue há 30 anos à frente de seu escritório. “Não estou preocupado com a inovação, mas sim com o aprimoramento. Não me importo de fazer sempre a mesma coisa, desde que eu tente fazer melhor”. Novos clientes o colocam em contato com novas perspectivas, novos conceitos e inovações de outros arquitetos. Esta é uma linha de pensamento que permeia sua obra sem saltos de novidades. “Às vezes percebo que testei novas técnicas, experimentei novas coisas, mas por demanda do cliente. Talvez quem vê de fora ache que é a busca pelo novo, mas não é isso. A gente acaba aprendendo alguma coisa, o trabalho está sempre em mutação”.

Uma das maiores dificuldades de um jovem arquiteto é desenvolver um trabalho autoral. “Se você faz uma opção errada, fica carimbado com as opções erradas para o resto da vida. Um profissional que faz um trabalho ruim apenas para agradar o cliente não será opção para quem quer alguma coisa interessante”. No entanto, bancar esse jogo à espera de um cliente que dê total liberdade de criação pode ser muito caro e pouco viável na opinião de Bertoldi. “Você corre o risco de esperar e o cliente nunca vir”. Segundo ele, a negociação com o cliente é inevitável, raramente o arquiteto terá total permissão. O controle do que pode ou não ceder no processo de decisão é uma das facetas que define a atuação do profissional. “Na área de estética, eu não abro mão de fazer do meu jeito. Decisões técnicas não podem ser negociadas. Deixo a critério da clientela o modo de vida que querem levar naquele ambiente”, define.

Para Marcos Bertoldi, o período atual é muito rico para a Arquitetura. Desde o início do século XX, as grandes transformações da sociedade, da arte, dos costumes impactaram diretamente na profissão, conceito que o arquiteto procura repassar para os estudantes na Universidade onde dá aulas em Curitiba (PR). “Eu procuro passar para os meus alunos que eles pertencem a um sistema, a Arquitetura brasileira. Procuro despertar neles que essa é a nossa característica mais familiar”. Bertoldi cita Vilanova Artigas, Paulo Mendes Rocha e Angelo Bucci (grandes expressões na Arquitetura brasileira) para traçar um perfil da escola nacional de Arquitetura. O professor conta que é necessário usar as referências internas. “Viver em um cenário não pode ser confundido com Arquitetura”. O arquiteto diz que não se deve fazer, por exemplo, uma janela pequena porque se viu em uma revista, na foto de uma casa em Punta del Este (Uruguai). Não se pode incentivar os alunos a se pautar pelo que veem de fora sem maior análise crítica. É papel do arquiteto dialogar com o cliente, fornecer informação e formar opinião. Porém, “em alguns momentos ele não vai conseguir. Aí, é melhor sair fora”.

Marcos Bertoldi já foi premiado pela Revista Olga Krell, pela empresa Docol e é procurado por diversos veículos internacionais para envio de material, como plantas, desenhos e fotos de suas obras, incluindo o Atlas Mundial de Arquitetura, Feynman. O objetivo de 2015 é manter a periodicidade do trabalho, com uma clientela pequena e espalhada por todo o Brasil. Além de tudo isso, dar início a um livro sobre os 30 anos de escritório, referenciando as dez maiores obras residenciais assinadas por ele.

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