Evandro Fióti fala da atuação do Laboratório Fantasma, selo criado ao lado do irmão Emicida, que nasceu vendendo discos a R$ 2 quando a pirataria era predominante no país

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Evandro Fióti (foto do facebook)

Seguindo o modelo norte-americano na indústria musical, mais especificamente no gênero rap, os irmãos Leandro Roque de Oliveira e Evandro Roque de Oliveira, Emicida e Fióti, respectivamente, montaram o Laboratório Fantasma. O estúdio independente, adaptado para as necessidades brasileiras, surgiu de uma crew de amigos que se encontravam e compunham juntos as rimas, batidas e músicas. “Como era um coletivo, acabava sendo pouco profissional na medida em que você precisa se reportar ao mercado”, conta Fióti sobre a separação da turma.

Em um determinado momento, com as ideias musicais elaboradas, decidiram ter a própria estrutura. “A gente preferiu se desvencilhar, na humilde, e montamos o Laboratório Fantasma”. A maneira que queriam lançar a mixtape do Emicida, por conta de suas pirações e da forma que tinham desenhado, não caberia numa gravadora major. “Precisávamos mostrar ao mercado que existia uma revolução acontecendo”, defende

“Existia um lapso no mercado. As gravadoras lutavam contra a pirataria e ao mesmo tempo cobravam caro nos CDs. Na época, não existia nada digital legalizado que remunerasse o artista”, garante Fióti. Nos camelôs, eram vendidos os mesmos discos que estavam nas lojas, porém com preço menor. Para, ele, o consumidor final da música não estava preocupado com a qualidade da mídia. Consumia o produto em si, o artista, a banda, a música. Se a qualidade era full HD ou se era gravação pirata, não era relevante. “Não se encontravam CDs por menos de R$ 40. E o salário mínimo era muito baixo”.

Nesse momento encontraram uma brecha. No modelo tradicional, das gravadoras tradicionais, gastariam cerca de R$ 4 mil para lançar uma mixtape para distribuir a lojistas segmentados. “Muitas vezes o produto fica retido nas lojas. O vendedor superfatura em cima dos discos para poder ter lucro. Mas como o mercado é 360, existem meios de inibir isso. O preço final depende muito de quem está fazendo o produto.” Com esse ”lance de pirataria bombando” e a força que tinham na internet, decidiram piratear o próprio disco.

“Vamos lançar uma mixtape reunindo todas as faixas desses últimos anos e vender a R$ 2”. Com a ajuda da família, gravaram cerca de 400 cópias em casa e o sucesso de vendas veio logo no começo. A estratégia de marketing, feita por uma questão de existência, chamou a atenção do mercado por conta do cenário da época.

Criatividade em meio aos desafios

Com todos os osbstáculos de início de carreira pela frente e com poucas frase3pessoas preparadas e dispostas a ajudar, o artista independente “tem que se virar e criar suas maneiras”. “Você deve ter noção do mercado, ser inovador, autocrítico e se empenhar no que está fazendo”. Para Fióti, diferente das gravadoras tradicionais, o cenário independente dá a liberdade para inovar. Para o empreendedor, a indústria musical e a demanda por consumo não permitem que se faça algo diferente. As majors precisam vender em larga escala e alguém que precise gerar essas vendas dificilmente aposta em novos talentos. Uma carreira sólida, que seja aproveitada por essa indústria, demora cerca de dez anos para se consolidar.

Outra dificuldade comentada por Fióti é a pouca aceitação do gênero rap no Brasil. “O maior ícone do rap nacional é o grupo Racionais Mc’s, que continua 100% independente”. Com relação a outros gêneros musicais, o empresário afirma que existem mais canais de televisão e outros meios de comunicação dando abertura, levando a um público consumidor maior. “Porém, ao mesmo tempo, você tem muito mais artistas disputando esse espaço. É muito mais caro entrar nesses espaços”, garante Fióti.  O mercado dominado pelos empresários tradicionais deixa o cenário independente aberto para o rap.

Celeiro de novos talentos

frase4O Laboratório Fantasma tem também como intuito ajudar na divulgação e estruturação de carreiras de outros artistas. “Primeiro a gente queria existir, pois saímos do nada. Depois criamos uma estrutura para fornecer a outros artistas”, conta o empresário. “O rap é um segmento novo no Brasil, mas tem muito a dizer. Ele vem das camadas mais baixas da população e os fatores sociais influenciam diretamente na pirâmide do business.” Segundo Fióti, o artista não vive inicialmente de rap. Primeiro “ele deve arrumar um trampo, deve existir, levar pão e comida para casa”. Seu sonho deve ser sua segunda opção, mas não a de prioridade. “Ainda somos pouco profissionais no mercado. Não existia nenhum espelho a ser seguido no Brasil no que diz respeito ao business”.

O modelo do Laboratório Fantasma assessora 360 graus na carreira do artista, dando assistência na criação das músicas, vendas, distribuição e controle da obra. Por ser um trabalho completo, existem dificuldades em trabalhar com um número grande de músicos. “Chegamos a ter quatro: Emicida, Rael, Mão de Oito e Ogi. Só que a gente viu que não dava para manter a estrutura e mantivemos o contrato apenas de dois”. Seguem na empresa Emicida e Rael. Decisão importante para a empresa vista por algumas pessoas como um passo atrás, por abrir mão de novos clientes. Mas Fióti avalia como uma escolha correta. “Se você tentar abraçar o mundo, é complicado. É melhor ir devagar e com firmeza”.

Diversificação de produtos para geração de renda

Desde o começo do projeto, a empresa vende camisetas artesanais para ajudar no custo da fabricação das mixtapes. Hoje a marca é peça fundamental para a manutenção do negócio. “A gente foi precursor no Brasil nesta forma de utilizar o merchandising como divulgação e renda extra para o artista.” As camisetas eram inicialmente vendidas por um preço de aproximadamente R$ 30. E eram tidas como caras. No circuito independente, custavam cerca de R$ 15. Hoje, pela qualidade dos produtos, pela fidelização dos fãs e por terem colocado a loja virtual como prioridade no projeto há algum tempo, o selo já é 100% sustentável. “Não dependemos de Lei de Incentivo, patrocínio, nem nada. Se alguma renda dessas entrar é para somar, mas não para existência”. No segundo ano da loja virtual, o sucesso foi tanto que permitiu que os artistas parassem de fazer shows para se dedicarem à criação de um novo disco.

“O pessoal da periferia se identifica com a marca. Conseguimos guinar para um público bem popular”. Nas estampas “A Rua é Noiz” e “I Love Quebrada”, a população da periferia e seus ideais são representados em centros comerciais, shoppings e empresas, que até então só davam espaços para roupas de grife.

As músicas e as roupas influenciam os costumes de uma pequena parcela da sociedade, o que traz uma grande responsabilidade à Laboratório Fantasma. “Muita gente se espelha no que a gente faz. Se você dá um passo em falso, alguém pode dar também”. Para ele, o sucesso está atrelado a esse tipo de realização, “e não à grana propriamente dita, que vem como consequência”. “Vamos seguir fazendo o que a gente acredita ser certo para que mais pessoas possam se espelhar para as suas carreiras e até mesmo para suas vidas pessoais”.

Como representantes da periferia no mundo corporativo, especificamente na indústria musical e fora do backstage, o Laboratório Fantasma é a porta de diálogo entre os artistas e a imprensa, entre produtores e casas de shows. “É muito importante a gente ocupar esse espaço. E fazemos isso com autonomia. Muitas empresas que dizem representar o gueto não tomam ações contundentes e não vieram desse universo de fato”.

Uma parceria com uma universidade pretende incentivar o público a ingressar no ensino superior. “São alguns braços que visam mostrar aos jovens da periferia que existe uma possiblidade de conseguir um futuro melhor”. A Universidade Cruzeiro do Sul garante 30% de desconto durante um semestre mediante o pagamento de um voucher, vendido no Laboratório Fantasma ao preço de R$ 200. “Essa foi a maneira que encontramos para inserir cada vez mais esse perfil de pessoas dentro das universidades. E o número tem crescido nos últimos anos”.

O objetivo a partir de 2015 é de deixar a companhia Laboratório Fantasma ainda mais ativa na sociedade. Mas os empreendedores sabem que, por conta do sucesso de seus artistas, este é um projeto que acaba sendo gerido de forma mais lenta. Os próximos passos serão a interação com artistas brasileiros de outros estados, com festas como a Ubuntu e o festival Noite Lab Fantasma, que aconteceu em Goiânia. O intercâmbio internacional, feito em parceria com artistas independentes como Fefê (França) e Aku Naru (EUA), será retomado para “fomentar a circulação do artista independente e sempre colocar a música como norte de tudo”.