Henrique Von, da IBM Brasil, e Eduardo Iha, da Telefônica, falam sobre os investimentos e desafios dessa revolução tecnológica no Brasil

Eduardo Koki Iha, Gerente da Divisão de Smart Cities e IOT da Telefônica

Eduardo Koki Iha, Gerente da Divisão de Smart Cities e IOT da Telefônica

Imagine acordar de manhã e ter em seu celular informações sobre os produtos que estão em falta em sua geladeira, daí uma lista de reposição é automaticamente gerada para facilitar sua vida no mercado. Ou ainda, poder circular pelas ruas já sabendo onde há vagas para estacionar por meio de indicações em seu GPS. Ao mesmo tempo, um fiscal pode receber, através de um app no celular, notificações sobre carros com irregularidade na Zona Azul e os funcionários de um mercado podem identificar um lote com produtos estragados por meio de um sensor na embalagem. Esse mundo totalmente conectado se aproxima de nossa realidade mais rápido do que percebemos.

A ‘Internet das Coisas’, termo cunhado por Kevin Ashton do MIT- Massachusetts Institute of Technology em 1999, define esse mundo de objetos interconectados. O conceito pode ser simplificado em três pilares: os sensores, que captam dados e informações de objetos; a conectividade, que transmite essas informações através de redes Wi-Fi, Bluetooth, LTE, NFC, entre outras; e a inteligência de uma base que analisa e utiliza esses dados para encontrar soluções. Muitos dos aparelhos que utilizamos, como smartphones, smartwatches e até mesmo geladeiras já oferecem funções que fazem parte desse conceito.  Segundo relatório da Accenture, até 2030, a adoção de ecossistemas conectados pode contribuir com US$ 14,2 trilhões para a produção mundial.

A corrida para essa onda tecnológica já reúne empresas do mundo todo para o desenvolvimento de dispositivos e inteligência no processo de conectar objetos. No Brasil, a IBM e a Telefônica são duas corporações que estão buscando alternativas para desenvolver tecnologia dentro desse conceito. Henrique Von, responsável pela área de Mobile da IBM Brasil, conta que a empresa entrou nesse mundo há alguns anos. “Há mais de seis anos, quando demos início a uma campanha chamada Smarter Planet, falávamos que o mundo estava ficando cada vez mais inteligente, conectado e instrumentado e já naquela época despontavam os três pilares que são a base do que chamamos hoje de ‘Internet das Coisas’”.

Henrique Von, Executivo de Mobile da IBM Brasil

Henrique Von, Executivo de Mobile da IBM Brasil

A IBM Brasil possui um centro de competência que atua de maneira focada nesse conceito. “A IBM tem uma plataforma para conseguir captar informação dos sensores nos objetos, tratar essas informações e colocar o que chamamos de analytics, que é a inteligência por trás desses dados”, diz Von ao exemplificar: “vamos supor que um trem em movimento tem as rodas em atrito com o trilho. Com os sensores funcionando nas rodas, poderão prever quantos quilômetros elas ainda conseguem rodar sem ter falhas. Assim, a informação colhida é que conseguirá fazer esse alerta. Esse tipo de inteligência, de analytics, de coletar a informação e tratá-la, é o maior foco da IBM”.

Em agosto de 2014 a IBM firmou uma parceria com a Apple para a produção de soluções inteligentes com dispositivos mobile para empresas. A companhia produz soluções específicas com aplicativos para Iphones e Ipads.

A Telefônica segue uma linha semelhante e busca aplicar a inteligência desenvolvida para conectar objetos em um cenário real de uma pequena cidade, projeto que está sendo testado e poderá ser replicado. Águas de São Pedro, o menor município do estado de São Paulo, está se transformando na primeira “smart city” do Brasil, com estacionamento inteligente, sistema de identificação de focos de Dengue, além de sistemas digitais para as áreas de educação e saúde. Eduardo Iha, responsável pela área de ‘Internet das Coisas’ e soluções para cidades inteligentes no Centro de Inovação da Telefônica, conta que a empresa olha de forma muito estratégica e global para essa tendência. “Entendemos que a conectividade é uma parte necessária, mas conseguimos abranger outras camadas da inteligência, ou seja, de plataforma, de como processar essas informações”, explica Eduardo.

Ambas as empresas contam com apoio de parceiros que atuam na área de sensorização para esses dispositivos a fim de viabilizar soluções práticas. “Nós conseguimos formar ecossistemas que permitam trazer diferentes tipos de solução. No caso de uma cidade inteligente, não fazemos os sensores de estacionamento ou de iluminação, mas temos parceiros que fazem isso para nós”, revela o especialista da Telefônica. As possibilidades são infinitas tanto para empresas quanto para o mercado de consumidores. “Imagine que, no futuro, um sensor seja barato o suficiente para as empresas colocarem-no dentro de uma embalagem de leite. Esse dispositivo vai avisar para outro fora da embalagem que aquele leite passou da validade ou está estragado. Esse tipo de sensorização pode ser usado ao extremo. Além de avisar ao consumidor que aquele produto não está pronto para o consumo, pode alertar a própria empresa produtora para que ela vá na causa e resolva o problema antes de impactar a vida do consumidor”, ilustra Henrique Von da IBM.

No entanto, alguns desafios ainda precisam ser resolvidos para um mundo completamente conectado possa emergir. Um desafio importante a ser enfrentado pelas empresas é a necessidade de mudança na visão e gestão das cidades. “É importante a visão de como se constrói uma cidade inteligente. Quando se trata de cidade menor é fácil a implantação, porque você conversa direto com o prefeito, com secretários, a gestão é muito mais centralizada. Agora, quando falamos de uma metrópole  como São Paulo, estamos falando de grandes secretarias, com processos bilionários, totalmente independentes. Por exemplo, o que tem a ver iluminação com segurança? Nós cidadãos conseguimos olhar isso de forma relacionada. Uma rua mal iluminada pode oferecer maiores riscos de segurança. Mas a gestão é completamente separada. Então a questão toda é a visão estratégica que precisamos construir, no sentido amplo e transversal”, garante Eduardo Iha.

Outro desafio a ser trabalhado é a questão da usabilidade e segurança dos dados. Henrique Von ressalta que é importante pensar essas tecnologias como algo que traga facilidades de uso e que não crie dificuldades de implementação para empresas e pessoas. “De que forma garantir que os dados coletados tenham segurança e não sejam alterados ou rastreados? Este é um dos desafios mais importantes da IBM. Nós temos uma unidade específica de segurança que opera integrada a esse conceito. Do outro lado da usabilidade, há o pilar forte de analytics. Temos de entregar informação realmente importante com os dados, não algo irrelevante.”