Jogo “Os Caminhos da Jiboia” tem versão em português, espanhol, inglês e hatxã kuĩ para baixar gratuitamente

“Para ser uma pessoa verdadeira você tem que aprender os conhecimentos do Yuxibu (os espíritos encantados). Eu posso te guiar para histórias nas quais esses conhecimentos estão guardados”. Assim o Pajé dá início ao Huni Kuin: Os Caminhos da Jiboia, um game brasileiro que coloca o jogador em contato com as lendas e memórias do povo indígena Kaxinawá, maior população nativa do Estado do Acre.

Os Kaxinawás ou Huni Kuin residem majoritariamente no Brasil, em 12 terras indígenas e em território urbano. São a maior população indígena no Estado do Acre, com cerca de 12 mil habitantes. Outra parte menor, de 2.500 habitantes, vive no Peru.

Download grátis

Criado para PC, o jogo 2D está disponível gratuitamente para download, é narrado no idioma hatxã kuĩ e legendado em português, inglês, espanhol e, claro, na língua nativa do povo. São retratadas cinco histórias antigas, nas quais o jogador encarna um jovem indígena que deve desbravar a floresta e enfrentar desafios para atingir objetivos.

O game foi idealizado pelo antropólogo e game designer Guilherme Pinho Meneses, a partir de alguns encontros com os Kaxinawá que ocorreram na Universidade de São Paulo (USP), onde Guilherme estuda. “Os jogos eletrônicos são ferramentas poderosas para disseminação de conteúdo. A indústria de game é superforte, mas dominada por empresas americanas, europeias e japonesas. Por que não desenvolver um jogo que promovesse o intercâmbio com a cultura indígena brasileira?”.

Trabalho em equipe

Mais do que um jogo inspirado em indígenas, Huni Kuin: Os Caminhos da Jiboia foi criado junto com os Kaxinawá (ou Huni Kuin, como eles se denominam). Assim, Guilherme e uma pequena equipe viajou para o Acre, nas terras indígenas Kaxinawá no Alto Rio Jordão, Baixo Rio Jordão e Seringal Independência. Em parceria com a comunidade, o grupo realizou diversas oficinas.

“Durante as oficinas, houve participação direta dos Huni Kuin na elaboração do roteiro, na escolha e na narração das histórias, na gravação de músicas e captação de efeitos sonoros, na tradução para a língua indígena e na autoria dos desenhos, todos inseridos no jogo”, explica Guilherme.

A partir de uma demanda dos próprios jovens das comunidades indígenas, a equipe de Guilherme, de São Paulo, também ministrou oficinas de audiovisual, que colocou os participantes em contanto com etapas de filmagem, elaboração de roteiro e edição. No site do jogo é possível ver o material produzido pela aldeia a partir disso. São pequenos vídeos que exibem o cotidiano e elementos da cultura desse povo, como as pinturas com jenipapo e urucum, as técnicas medicinais e a pescaria com timbó.

Quando a tecnologia adentra a floresta

Na maioria das aldeias Kaxinawá não há energia solar e objetos como computadores, câmeras fotográficas e celulares são raros. Guilherme relata que, apesar disso, há muito interesse das comunidades na inclusão digital. Em 2015, a Funai e o Ministério da Cultura instalaram ponto de internet via satélite em três das 32 aldeias da região.

“Durante a experiência de campo, notamos rapidamente um fascínio dos Huni Kuin por tecnologia. Em muitos casos, ouvimos a seguinte expressão: ‘Nós somos donos da ciência. Vocês, nawá (brancos), são donos da tecnologia”, descreve Guilherme, em artigo que detalha a vivência. Ele enfatiza que as alianças que se constroem entre os povos abre caminho para trocas de conhecimento entre a ciência da floresta e as tecnologias dos brancos.

Como os Huni Kuin foram coautores do jogo, foi reservada uma parte do dinheiro disponível para a criação do game para atender a uma necessidade da aldeia: ter acesso à energia. Assim, foram feitas a manutenção e instalação de sistemas de energia solar em nove aldeias, iluminando cerca de 100 casas, criando pequenos pontos de cultura e restaurando alguns já existentes na região.

“Os Huni Kuin são contra uma visão de que eles estão isolados”, ressalta Guilherme. “Eles são povos que fazem parte do nosso país e que querem disseminar o conhecimento deles, isso passa pela tecnologia, que ajuda esse saber a estar vivo. Para eles, esse ‘estar vivo’ depende também de nós, que estamos fora das aldeias”.

Fonte: Fundação Telefônica