Segundo matéria do Valor Econômico, as multas continuam a crescer, e o mesmo acontece com as companhias. A colossal penalidade antitruste de € 4,3 bilhões decretada na semana passada pela União Europeia (UE) contra o Google, por abusar de seu poder no mercado de telefonia celular, correspondeu a quase o dobro da cobrada da empresa no ano passado por favorecer os resultados de busca de seu serviço de compras em detrimento do dos concorrentes. Em ambos os casos, a questão central era a maneira pela qual o Google usa o poder de seu gigantesco ecossistema – detém cerca de 90% dos principais mercados de busca da UE, e seu software Android é usado em mais de 90% dos smartphones do mundo – para alijar os concorrentes.

A empresa está entrando com recurso contra a mais recente decisão e apresentará argumentos técnicos, com variados graus de mérito, sobre por que não é um monopólio. Mas o processo também lança uma desconfortável luz sobre a concentração de poder em meia dúzia de empresas. O oligopólio resultante é o desafio econômico e político do nosso tempo.

Em estudo divulgado no mês passado, economistas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) relacionaram a difusão insuficiente de novas tecnologias à fragilidade do crescimento total da produtividade. As maiores empresas, especialmente nos setores mais digitalmente conectados da economia (tecnologia, finanças e mídia), são incrivelmente produtivas. Todas as demais, nem tanto. A consequência é que o crescimento da economia, como um todo, saiu lesado.

Outro motivo para a concentração de poder corporativo é a conquista política. Os americanos inventaram a política antitruste contemporânea e adoram investir contra a velha Europa “estatizante”. Mas um estudo fascinante dos acadêmicos Germán Gutiérrez e Thomas Philippon mostra que os mercados da UE são, na verdade, mais competitivos. Eles têm níveis mais baixos de concentração, excedentes de lucros mais reduzidos e menores barreiras regulatórias ao ingresso.

Pesquisa publicada nos últimos anos mostra que a concentração e as taxas de lucro aumentaram para a maioria dos setores produtivos americanos desde a década de 1990. Jason Furman, o ex-diretor do Conselho dos Assessores Econômicos, sugeriu que esse fenômeno pode explicar  as barreiras ao ingresso em alguns mercados. O acadêmico David Autor vinculou a mesma consolidação à diminuição da participação do trabalho na economia dos Estados Unidos. Há evidências, também, de que um pequeno grupo de empresas “superstars” está bem à frente de outras, não apenas em termos de lucros como também de produtividade.